A primeira mesa desta quarta-feira teve como tema “A sociologia econômica no Sul Global: novos desafios e propostas”. Coordenados pela professora Thais Joi Martins (UFRB), os professores Antonio José Pedroso Neto (UFT) e Karina Gomes de Assis (UFSCar) palestraram sobre o tema abordando dois viés: o primeiro mostrou os conceitos que norteiam as abordagens sobre estudos ligados a sociologia econômica. O segundo, refletiu as relações econômicas a partir de uma região. Enquanto a debatedora Ana Carolina Bichoffe mostrou as várias possibilidades desta disciplina.
Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Tocantins (PPGDR/UFT) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade (PPGCOM/UFT), Antonio José Pedroso Neto investiga a dimensão da vida econômica abordada pela sociologia econômica a partir da produção de discursos econômicos feita por jornalistas.
Pedroso Neto explicou que a sociologia econômica vai além dos critérios da economia (escassez, recursos, consumo, racionalização). Insere-se num cenário rico no qual as ações consideradas a partir das variáveis sociológicas como crença, cultura, valores. “A vida econômica está enraizada na sociedade através da religião, política, cultura, etc”.
Contudo, é o discurso movimenta a vida econômica da sociedade. “Os pronunciamentos de um ministro ou um diretor do Banco Central movimentam as bolsas, os investimentos”, afirma Pedroso Neto.
Durante a pesquisa realizada com jornalistas, as variáveis coletadas caraterizaram o perfil desse grupo. Foram avaliadas variáveis como origem familiar, local de nascimento, escolaridade dos pais, entre outras. “Nós avaliamos também como esses jornalistas ascenderam na carreira. Não foi só o dinheiro que contou como variável. O engajamento no trabalho foi um fator, como também a capacidade de ter uma fonte, garantir um furo, pois dar a notícia que ninguém deu é mais importante para o mercado, para o mundo financeiro. Teve um jornalista que relatou que entrevistou Armínio Fraga e conseguiu a primeira capa do jornal. A fonte é fundamental para ascender na profissão”, explica o professor da UFT.
O segundo viés coube a professora Karina Gomes de Assis (UFSCar) que se distanciou da teoria e ofereceu a platéia uma relação de como pensar a sociologia econômica a partir da região que se vive. A questão da professora da Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, é saber quem são os agentes do contexto diante do fenômeno econômico. Seria o contexto social da economia.
Karina Gomes explanou sobre a condição desse contexto durante as décadas de 1980 e 1990 no Brasil. “Houve uma diminuição da interferência do Estado nas atividades econômicas que passaram a ser exercidas mais pelo setor privado. Esta mudança de atores gera variáveis para discorrer sobre a sociologia econômica”, afirmou.
Ainda deu como referência as políticas adotadas pelo Fundo Monetário Internacional com relação a desigualdade social, cuja diretriz de investimento mudaram os atores sociais, trazendo uma riqueza de detalhes capaz de gerar vários estudos em diversas áreas de conhecimento.
Os estudos da sociologia econômica tem conceitos que influenciam os atores sociais. Karina Gomes sugeriu que a platéia pensasse na problematização de Cachoeira, uma cidade que é patrimônio cultural e o incentivo econômico como destino turístico. A pesquisadora apontou que as novas configurações afetaria a cultura, a política social, entre outras, pois a comunidade deverá se adaptar às dinâmicas que surgirão. Como exemplo deu a transformação de quilombos em pontos turísticos e os possíveis embates entre quilombolas e grandes agricultores se o Estado optar, como já fez, por investimentos tendo como base o desenvolvimento sustentável e a questão étnica. “Isto mostra que a importância do discurso”, aponta.
Karina Gomes ainda mostrou que em São Paulo, os empreendedores quilombolas vem recebendo apoio do Banco Mundial. É um caminho encontrado para diminuir a vunerabilidade e precariedade do trabalho entre os negros e a permanência de lutas contra o racismo. Entre as novidades estão a Feira Preta (produtos produzidos por negros) e a BlackRock, líder global de gerenciamento de investimentos e de risco e serviços de consultoria em mais de 30 países que apoiam as mulheres negras. “Estas ações são as necessidades culturais existentes em São Paulo, mas qual seria as das marisqueiras para empreende?”, finaliza.
Ana Carolina Bichoffe , também professora da Universidade Federal de São Carlos, foi a debatedora da mesa-redonda e pontuou em sua fala que existe uma genealogia da sociologia econômica no Brasil que teve início com Moacir Palmeira, doutor em Sociologia pela Université René Descartes (Paris), quando pesquisou, juntamente com outros profissionais, grupos sociais e seus laços horizontais na zona da mata, entre as décadas de 1960-70.
Para Bichoffe, essas pesquisas resultaram em novos objetos de estudo, criando uma rede de saberes, propostas que se transformaram num campo multifacetado, caleidoscópico (metáfora extraída do trabalho de André Hahoum intitulada “A sociologia econômica no Brasil: balanço de um campo jovem”, realizado em 2017). Surgiram assim as linhas de trabalho como disputas e divergências em formas organizacionais; construção e dinâmica dos valores de mercado; atores econômicos, contribuição enquanto agentes; circuitos e suas trocas materiais e simbólicas e múltiplas interfaces e saberes de práticas entre experts e leigos.
