A última mesa desta quarta-feira teve como tema “Os Movimentos sociais no Cone Sul”. Os palestrantes Américo Oscar Guichard Freire (FGV-RJ), Grimaldo Zachariadhes (FGV-RJ), e Franco Alejandro López Marín (USP) foram coordenados pelo professor Silvio Benevides (UFRB) que contou aos participantes sobre a origem do Encontro Brasil-Colômbia. “Há três componentes desta mesa que estiveram no primeiro encontro na Colômbia que foi o professor Américo, o professor Grimaldo e eu. Nós representamos o Brasil nesse encontro. Foi o professor Grimaldo que teve a ideia e se articulou, por estar fazendo o doutorado na época na Colômbia, para que este evento fosse trazido para o Brasil. Espero que este evento possa promover futuros intercâmbios entre os dois países”.
A primeira explanação foi do professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) Américo Oscar Guichard Freire que trouxe para a mesa a ideia de popular a partir da biografia de Frei Betto (escritor mineiro e frade domicano ligado à militância de movimentos pastorais e sociais no Brasil). Entre as décadas de 1950 e 1960, surge um campo progressista focado na educação com o apoio da igreja católica. Alguns frades dominicanos ganham notoriedade, mas com a implantação da ditadura militar, acabam presos. Dentro do presídio de Presidente Venceslau, em São Paulo, esses frades dominicanos se dedicam a educação dos presos, compreendendo que a luta contra a opressão poderia se dar através da Educação.
Ao saírem da penitenciária, três desses frades, um deles Frei Betto, iniciam atividades educacionais em comunidades invisibilizadas e periféricas, surgindo assim uma ação popular. Os três também perceberam que necessitavam ampliar o campo de atuação e semeiam a ideia de encontros com os bispos que resultariia em Encontros Intereclesiais de CEBs, na década de 1970.
Surge assim a Teologia da Libertação, uma corrente teológica cristã nascida na América Latina, após a Conferência de Medelín com o apoio do Vaticano. “Outros cristãos nas décadas de 1980/1990 se unem a esta ideia e ampliam a educação popular na periferia de São Paulo. Frei Betto, então, reanima a pastoral no ABC e conhece Luiz Inácio Lula da Silva”, conta Guichard.
Contudo, esse movimento popular não sobreviveu plenamente. Hoje, não é praticado em comunidades que ainda necessitam de educação. Guichard aponta um caminho ao fazer uma pergunta:”como uma sociedade tão conservadora e tão hierárquica como a nossa foi possível construir um campo popular com essa potência naquele contexto? E uma experiência esgotada ou dá para reviver? Acho que poderá”, declara o professor da Fundação Getúlio Vargas.
Após a explanação de Guichard, que mostrou a importância desse movimento popular sendo emblemático para a história do Brasil, o professor Grimaldo Zachariadhes (FGV-RJ),(FGV-RJ) inicia sua apresentação sobre os 50 anos da Conferência de Mendelín, a mesma que abre caminho para a educação popular no Brasil e que consolida a ideia da Teologia da Libertação. Para compreender o que significou este evento ao contexto dos movimentos populares, Zachariadhes detalhou historicamente a participação da Igreja Católica na America Latina e como os encontros de bispos foram importantes para determinar a consolidação dos movimentos populares.
“No século XIX, com o surgimento de novos países, o Vaticano vai atuar em duas linhas na América Latina. A curia romana quer maior ação colegiada entre os bispos. Outra linha é maior controle das igrejas nativas. Isso adentrou o século XX e teve desdobramentos positivos e negativos. Aí vai ter uma Igreja com uma influência mais europeia. Por isso é que do século XIX para o século XX terá mais atuação da Igreja com seus dogmas e o catolicismo popular, que era tolerado, começa a ser tido como ignorância religiosa. Essa é a Igreja mais ligada ao Vaticano. Essa Igreja não aceitava negros nem mestiços”, lembra Zachariadhes.
Em 1968, o encontro de bispos da América Latina ocorre na cidade de Medelín. A escolha do país se deu por conta de seu ponto geográfico e pela força da Igreja Católica na Colômbia. É também nesse período que as manifestações populares são sistematicamente realizadas. A Igreja não ignorava o fato, mas se dividia internamente entre reassumir a questão popular ou caminhar para um modelo distante disso. De acordo com Zachariadhes, foi durante a Conferência de Medelín que bispos brasileiros se apresentaram como os progressistas assumindo a ideia de apoiar amplamente os mais pobres com o intuito de promover a paz num continente insatisfeito. Deste modo, a Igreja passa atuar mais efetivamente junto a movimentos populares como bem descreveu Guichard. No entanto, Zachariadhes alerta e polemiza ao revelar que a própria cidade de Medelín até hoje não valoriza a importância da Conferência de 1968, mesmo esta sendo um marco importante para os movimentos sociais.
Franco Alejandro López Marín, mestrando da PROLAM-USP, contribuiu com a mesa ao apresentar sua pesquisa sobre o Estado da Colômbia e o genocídio de mais de 89 mil pessoas, número maior que todas as mortes registradas durante a vigência de regimes ditatoriais na América Latina, assunto que revela uma conexão com os movimentos populares.
A violência na Colômbia tem a ver com os movimentos sociais que se manifestavam ainda na década de 1960. Eram pequenos agricultores que lutavam por mais direitos. A negativa dos governos anticomunistas apoiados pelos EUA faz com que surja a guerrilha camponesa que se transformará nas Forças Armadas Revolucionárias Colombiana – Exército do Povo ou FARC-EP cuja intenção era implantar um Estado marxista. Outro grupo de esquerda foi o Exército de Libertação Nacional (ELN).
Nos anos de 1980, a guerra civil aumenta no território colombiano. O tráfico de drogas financia a luta armada. Só em 1985 uma saída política nasce incentivada financeiramente e intelectualmente pelas FARC-EP com a participação do Partido Comunista Colombiano: a União Patriota.
A tentativa de paz porém durou pouco. Os políticos da União Patriota começaram a ser assassinados, como também militantes que lutavam contra a opressão praticada pelo Estado colombiano. A lista de pessoas mortas foi extensa: prefeitos, deputados, candidatos a presidência da república, militantes, somando 3 mil integrantes do partido União Patriota. Além da morte de políticos, o governo da Colômbia é acusado de promover mortes através da atuação de grupos paramilitares.
Em 2017, o secretário-geral da ONU para Direitos Humanos, Andrew Gilmour, fez uma visita a Colômbia e cobrou medidas mais severas do governo sobre o genocídio praticado há mais de três décadas. Além disso, o Conselho Nacional do órgão internacional acordou permanecer em solo colombiano até janeiro de 2018 para monitorar o cessar-fogo entre o governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional (ELN).
Diante do exposto pelos três palestrantes, Silvio Benevides indicou que os assuntos levantados se interligaram, pois numa visão ampliada, pode-se perceber uma “rede de conexões” capazes de mostrar as necessidades da América Latina para superar situações de violência através da valorização dos movimentos populares. Diogo Valença, coordenador e professor do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFRB, contribuiu declarando que é importante o apoio aos movimentos populares já que a América Latina apresenta um quadro de contrarrevolução.
